A Flor e a Náusea

Perfil




Amigos

Arquivos




07/08/2004 17:13
Post que escrevi para o meu blog anônimo, e não resisti. Trouxe pra cá.

“amor é o que se aprende no limite, depois de arquivar toda a ciência”

07.08.04 | limitolândia | e-temporal | por c. doido de verdade

. la.porra.da.multiplicité.de.language.do.amorío.

Sumi uns dias daqui. É que arquivei a sintaxe, para ver se o amor se conjuga em sua própria gramática. Quem disse? Amor é bicho indócil, esquivo a domesticações.
Quis entender como se conjuga, e levei rasteira de seu imperativo.
Amor é o que se aprende sem ciência. É experiência do beijo. De olhar os olhos de alguém no instante que acorda: sonolentos e cheios de aurora. O amor cheira a amaciante: roupas amassadas sobre a cama, bagunça no guarda-roupa, calcinhas pelo chão. Amor é o substantivo que só se verbaliza quando perde a primeira pessoa do singular. E não tem regência verbo-nominal. Perde a concordância. Objetos indiretos. Predicação duvidosa. Sujeito composto-oculto-indefinido. Amor é perder a gramática, pra ganhar a poesia.
E tem gente que acha que não. É uma agonia de tornar o amor coerente. Um poder de calar, quando o melhor é o berro. E assim ameniza o amor. Dopa. Até que morra, mofino e sem sentido. Amor é tudo que as pessoas querem, depois de pipoca e cinema norte-bobo-americano. E é tudo que não cabe no cotidiano medido: na feira do mês, na palavra exata, na resposta esperada, na sintonia perfeita, na frase de efeito, no livro de auto-ajuda, nos previsão do horóscopo, no blog. O amor é a possibilidade de delírio a partir das coisas mais banais. É enroscar os pés, sob os lençóis, no calor de uma quarta-feira. É água de coco comprada à beira-mar, apenas para refrescar a ressaca, ou a tensão, ou coisa nenhuma. É o gesto mais bobo e mais cheio de significado. É perder a desinência na pessoalidade do outro. E não achar que ta em prejuízo. Que amor não preço, tabela de mercado, coerência matemática. O amor só vale a pena quando a gente quer abrir mão de alguma coisa. Seja de um adjetivo, de uma pegação, de uma lógica, de um verbo, de um medo, de um nada, de tudo, talvez. Amor acontece quando a gente se distrai. E depois olha a pessoa e acha o mundo estranho sem ela. Acho que o amor é a coisa mais equivocada e mais linda. Por isso é humano. Amor de plástico, com embalagem pop de dia perfeito dos namorados eu não quero. Quero amor feinho (adélia prado, perdoe o plágio, é só devoção a seu verso). Não quero ninguém igual a mim, que me dê todas as respostas. Não quero amor engomado. Proto e acabado; fast food; ao consumo imediato. Quero o amor que conflita. Que olha nos olhos da diferença. Ajusta o advérbio, para caber no modo no outro. Não pelo gosto do encaixe, mas pelo desejo de estar ao lado. Acho que o amor acontece quando a gente arquiva o método perfeito; o conceito acabado; a metodologia definida. Mesmo que precise doer. Mesmo que precise chorar. O amor é cutucar as gavetas e encontrar as peças íntimas do outro. Porque as coisas mais triviais do cotidiano estão emaranhadas: nos cômodos, nas veias, nas cartas, nos suspiros. O amor acontece quando a gente não se encontra nos nossos gestos mais sabidos. Porque bagunçou os acenos, as verdades, o eu. Porque não é mais sozinho. E se confunde com o outro. São as bobagens mais deleitáveis. Mesmo que tudo desarrume depois, ou não. Mesmo que não encaixe. Amor perde o endereço.O amor não mede. Não tem tempo. Só intensidade. Amor é atemporal. Melhor: amor é temporal. E eu, menina enxaguada, choro baixinho. O amor que poderia ter sido, e não foi, e não é, e talvez seja. E eu descubra mais tarde, quando desarquivar a ciência. E for tarde demais para o amor.

Contato: hipertextumal@zipmail.com.br
Links:
www.limitomolandia.gov.pqp.br
www.e-temporal.com.gripe.braba.br
www.doalem.com/cdoidodeverdade




enviada por Poetisa



16/07/2004 23:55
Estou enclausurada: paredes; livros; hipóteses; silêncio.
[Maratona-intensiva-para-qualificação]

Uma pausa para um café e Chico é sempre bem-vinda.
Ninguém entendeu as mulheres como ele.
Por isso esta canção agora:

A MAIS BONITA (Chico Buarque, 1989)

Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar

Bonita
Pra que os olhos do meu bem
Não olhem mais ninguém
Quando eu me revelar
Da forma mais bonita
Pra saber como levar todos
Os desejos que ele tem
Ao me ver passar
Bonita
Hoje eu arrasei
Na casa de espelhos
Espalho os meus rostos
E finjo que finjo que finjo
Que não sei




enviada por Poetisa



26/06/2004 14:10
Mudaram as estações.

Canção de Outono
.
Perdoa-me, folha seca,
Não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
E até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
Pelas areias do chão,
Se havia gente dormindo
Sobre o próprio coração?
.
E não pude levanta-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
É que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
Velando e rogando aqueles
Que não se levantarão...
.
Tu és a folha de outono
Voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
Menos que as folhas do chão...
.
Cecília Meireles



enviada por Poetisa



17/06/2004 00:37
Pessoas, eu não abandonei o blog.
O blog me abandonou :P.
Explico: o blig (servidor) anda preguiçoso e pouco confiável. De modo que desde a semana passada tento (em vão) postar alguma coisa aqui. De modo que estou com ÓDIO do fato de que por duas vezes fiz textos enormes, a B* do blig fingiu que postou, e... nada (hunf).

Conclusão: preciso migrar de endereço (de servidor!).
Também estou com saudades de vocês.
Prometo resolver isso em breve.
Beijos meus.
***

Hoje centenário do Bloomsday!
enviada por Poetisa



18/05/2004 18:52
allende: 'escrevo como um exercício constante de saudades'

neruda: 'por este ou aquele motivo sou um triste desterrado. mas de algum modo viajo com o nosso território, e comigo, lá longe, continuam a viver as essências longitudinais de minha pátria'

saudades de jampa


www.fotolog.net/joaopessoa

saudades

do recorte do litoral

de ver o sol morrer no jacaré, ouvindo o bolero de ravel ao vivo no sax.

de mergulhar os pés na areia de camboinha

dos coqueiros do cabo branco

de bater perna na feirinha de tambaú

do empório! do empório! do empório!

sushi no tatame do kamikaze

ver a lua nascer no cabo branco

as castonholas do decom

os personagens da praça da alegria (ufpb)

a cantina de nancy!

fim de tarde no hotel globo

o pastel da feirinha

tomar água de coco na calçadinha de manaíra

o mar do bessa

a lagoa

os festivais de arte no cento histórico

o fenart!

a ponta do seixas (mais oriental das américas)

o acarajé do bargaço

o camarão à romana do convívio bar (e aquela cerveja estupidamente gelada)

o paraíba café

o teatro santa roza

a trilha do trem que corta o jacaré
tomar cerveja na feirinha

perder a noção do tempo vendo livros na mar de histórias

comer um sunomono, depois de ver algum filme do mag shopping

rodar a praça joão pessoa mil vezes e ficar puta porque não tem estacionamento

a praça antenor navarro

a biblioteca central da ufpb (mesmo reclamando do calor)

o sushi bessa

a tapioca do mangai (e a da feirinha também!)

comer cachorro quente no mundial no fim da noite

tomar vinho no gratinare

a piscina lá de casa

as ruas de miramar

o bairro de bancários

a faculdade de direito no centro

o cruzamento da epitácio pessoa com a rui carneiro

comer caranguejo na praia

carapibus

o ponto cem réis

o museu da igreja de são Francisco (bela!)

a catedral

a avenida edson ramalho

a casa deazulejos

a vista da minha varanda para o mar de intermares

o sotaque mais lindo do mundo!
o cheiro da cidade

um sem-número de pessoas que eu amo







enviada por Poetisa



11/05/2004 23:36
EPIFANIAS & DELICADEZAS

Voltando para casa hoje, deixei meus olhos estacionados num anúncio de gosto duvidoso de uma operadora de celular. Uma criatura (de beleza, admito, não duvidosa!) segurando seu celular. Um número. Escrito: “oi pegação”. Sabem qual é? Pronto. Um minuto de silêncio para mim. Não, não para entender (claro que não!). Está óbvia. É luto mesmo. Mau gosto dos diabos.

Ainda sobre o assunto que em traz aqui hoje. Conversando com meu amor ontem, descubro (um pouco surpresa, é verdade) alguns desencontros que passamos quase sem perceber. E algumas nossas fragilidades. Fragilidades difíceis de escapar hoje em dia. De como as relações afetivas estão sendo esgarçadas, ao sabor do mercado e de um nervosismo hedonista. A cultura do consumo transforma tudo em mercadoria: adquire (ou “pega”), gasta, descarta e procura o novo. Tudo muito veloz. Tudo muito nervoso. E mesmo o amor está assim, meio descartável. Tão comum ouvir de amigos que ficaram com fulaninho, mas que nem rola mais, que cansou, que não se apaixona. Não é nada moralista. Até acho que ninguém é obrigado a casar com vinte e poucos anos. Balada é bom. Beijar gente bonita também. Mas parece que muita coisa se perde nessa ansiedade de consumir prazer. Quero entender o valor de olhar nos olhos; e dormir sentindo a respiração de quem a gente ama; e fazer planos; e sonhar em conjunto; e rir de bobagens; e mãos se acariciando no cinema; e brincar no chuveiro; e ver o sol nascer na cama; e fazer cara feia por ciúmes; e cozinhar pra quem a gente gosta; e descobrir quem merece nossa melhor ternura. Isso não tem preço. Por isso não cabe no mercado: não é fácil jogar fora, pra comprar um de outra linha. Sei lá. To de saco cheio da ditadura do prazer. Prezo meu tesão e a alegria. Mas prefiro ter o prazer do que deixar que o mito do prazer inesgotável me tenha. Hoje voltando de viagem e trocando idéias com o papai do meu amor, e falando dessas coisas, eu disse a ele que me assusta ver com que facilidade o capitalismo se apropria das nossas utopias, e mercantiliza a beleza. Como é fácil para uma propaganda falar nossa linguagem, vestir nossos mitos, e prometer realizar desejos. Como ela se reveste de ludicidade, e ganha ares de sedução, plastificando nossa subjetividade. E perguntei a ele (nas minhas considerações céticas) onde ficam nossas possibilidades de resistência, e mesmo nossos afetos, num contexto em que nosso imaginário está capturado por uma autoridade publicitária. E ele me trouxe Marx, dizendo que “nada que é humano pode nos ser estranho”. Gostei da resposta. É preciso elegância para assumir um senso crítico sem perder a poesia. Ou não perder a ternura jamais, para lembrar o lema de um grande utopista.

Penso que uma possibilidade de resistência hoje é o amor. Não o amor que dá e passa na velocidade de uma noite. Outras possibilidades de afeto que não se esgotam no sexo. Estou ouvindo Frank Sinatra, My Way. E pensando no que disse ao meu amor dia desses: toma meu coração e cuida bem dele, tá. Delicadezas. Epifanias. E confusões de uma pisciana romântica.

enviada por Poetisa



24/04/2004 01:52
Melancolias me espreitam. Nostalgias – para ser mais precisa. Hoje recebi o convite de formatura da minha (ex) turma de Direito. Fotos, nomes, histórias: um mundo de memórias, renúncias, delícias, descobertas. Reflexões. É lindo ver meus colegas se formando. E é estranho não estar entre eles. Não, não me arrependo das escolhas que fiz. Mas a partir do momento em que eu não repensar minhas decisões, podem ter certeza que eu surtei. É meu movimento: preciso rever, me autoquestionar, imaginar outras possibilidades.

Hoje estou passeando por lembranças, e percebendo o quanto minha convivência com essas pessoas e com esses sonhos (que eles estão agora realizando) me fizeram ser quem sou hoje. Para quem não sabe: tranquei a matrícula de direito no terceiro ano, quando me formei em jornalismo e resolvi vir fazer mestrado aqui no Rio. Deixei, claro, um caminho, e com ele alguns velhos mitos. E não é fácil se desfazer dessas coisas. Acho que fiz bem, o melhor pra mim. Pelo menos do meu ponto de vista hoje. Mas algumas emoções se machucam nessas perdas. E faz parte da renúncia doer um pouco, adivinhar como eu estaria se tivesse escolhido outra via. E se eu estivesse entre aqueles rostos ali, de grandes amigos? Lembrei de nossas festinhas no primeiro ano. O convívio bar: camarão à romana, cerveja geada, denis e dudu brigando pelo violão. Os churrascos na casa de vital. E tucha (ébrio, claro) chorando porque nunca vai poder tomar uma com Vinicius de Moraes! Os professores faltosos. O relógio da torre parado. E nossos sonhos se misturando às normas borradas em códigos antigos. As histórias hilárias. As farrinhas lá em casa. E paloma bêbada : “vcs estão ouvindo o que eu to falando? porque eu não to..!” Frase clássica,sempre relembrada em todas as cachaças seguintes. Dudu cantando seu hino da época: “eu não caibo mais nas roupas que eu cabia...tantos anos se passaram enquanto eu dormia...”. Histórias de um tempo. Não caibo em alguns velhos sonhos, mas parte deles estão aqui comigo: nas escolhas que faço, nos equívocos, nos receios, nos silêncios e nos discursos. Não seria quem sou hoje se não tivesse experimentado esses projetos e convivido com esses amigos. E feito algumas renúncias. Porque há muita, muita paixão na renúncia. É preciso ênfase e emoção para negar. Sobretudo se você nega o que já foi uma escolha. Tenho paixão por essas pessoas, por essa história. E, claro, por esse curso: deve ter sido, decerto, um dos melhores enganos. A vocês, amigos, eu desejo paixão. Para afirmar o que eu neguei. E faze-lo do modo mais lindo possível. Gostaria de estar no baile nesta noite, tão importante para mim quanto para vocês. Sejam, sobretudo, felizes. A cada ano, a cada sol, a cada conquista. Obrigada, viu. E obrigada sobretudo a Kati que mandou o convite para mim e pra Kaly com uma dedicatória muito fofa. Amo vocês!

***

ps: estou lisonjeada porque descobri hoje que “nietzsche" perde seu tempo lendo essas bobagens aqui. vejam vocês: meu guru. descobri que a internet é capaz de milagres. tim-tim, nietzsche: às mulheres. espectrais ou substanciosas. (vide comment no post anterior)

enviada por Poetisa



14/04/2004 19:49
Este post de hoje é porque eu tenho um amigo lindo e estou com muita saudade dele. Porque tenho um amigo lindo que entende meus gostos esquisitos. E porque hoje encontrei um embrulho na caixa de correspondência. Um bilhete: letras apressadas e um cd que estou ouvindo agora – inebriada, inebriada. Porque ele me mandou este cd lá de jampa. Porque agora escutando essas músicas (lindas, lindas) fico lembrando daquelas vezes que a gente se encontrava na casa de George e ficava horas a fio: entre poetas e canções. George dedilhando seu violão. A gente bagunçando sua estante: livros espalhados, gargalhadas, taças de vinhos, poemas, Chico Buarque (sempre, sempre), Fernando Pessoa, Drummond, Cecília, o Livro do Desassossego, uma bossa esquecida (e de repente lembrada: entre notas e letras), discussões, e nossos vozes soltas, brincando de recitar versos repetidos. E nossas perspectivas (um pouco adolescentes ainda), e nossos medos, e algumas frustrações, tragadas no álcool e na poesia. Isso me lembra também o tempo dos saraus. Cada sarau era uma expectativa. E todo mundo cobrava um novo sarau, o próximo. E demorava: tinha que ter esse charme! ;) Sempre pessoas novas aparecendo: o livro debaixo do braço, aquela meia-luz das velas, e nossos brindes a dionísio que (posso apostar) quem viveu não esquecerá. Saudade, muita saudade. É a este meu amigo Norton que dedico o post de hoje. Grata, como sempre, à sua amizade e à poesia que compartilhamos juntos tantas vezes.

A canção do cd que estou ouvindo agora:

DUETO
(Chico Buarque)

Consta nos astros
Nos signos
Nos búzios
Eu li num anúncio
Eu vi no espelho
Tá lá no evangelho
Garantem os orixás
Serás o meu amor
Serás a minha paz

Consta nos autos
Nas bulas
Nos dogmas
Eu fiz uma tese
Eu li num tratado
Está computado
Nos dados oficiais
Serás o meu amor
Serás a minha paz

Mas se a ciência provar o contrário
E se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir
Em nos separar

Danem-se
Os astros
Os autos
Os dogmas
Os búzios
As bulas
Anúncios
Tratados
Ciganas
Projetos
Profetas
Sinopses
Espelhos
Conselhos
Se dane o evangelho
E todos os orixás
Serás o meu amor
Serás, amor, a minha paz

Consta nos mapas
Nos lábios
No lápis
Consta nos Ovnis
Na Pravda
Na vodca

enviada por Poetisa



05/04/2004 21:31
" É difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, severina"

Sim, a citação acima é do João Cabral. E é de uma verdade crua. Alguém discorda? Espero que sim. Não gosto muito das unanimidades. Nem eu, nem o Nelson Rodrigues. Mas aí é outra história. Hoje é sugunda-feira. E confesso que não estou no meu melhor humor. Coisas minhas. Surtos temperamentais. Passa.

É um "meio-surto temperamental". O que é pior. Raiva tem que ser uma coisa intensa, pra passar logo. E nem quero falar nisso. Chega.
Falar de coisas boas.
Em outros aspectos estou muito feliz. Aguardo, ansiosa, a chegada de Deinha, Décio e Duda no Rio. Páscoa bem família, muito legal =). Levar a pequena (dudinha, minha sobrinha) ao teatro; tomar um chope em ipanema e tal. Vai ser divertido.
Tive um fds ótimo, ao sabor mineiro: Juiz de Fora.
Lugar que merece uma homengem aqui. Virá na hora certa.

Um poema do João. Hoje estou assim: muito João Cabral de Melo Neto. Sem guarda-chuva.

A Carlos Drummond de Andrade

Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.


Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.


Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.


Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.


Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

João Cabral de Melo Neto
enviada por Poetisa



29/03/2004 18:52
Gente, hoje é sessão nostalgia. Nada como canções para trazer o sabor de uma época. Estou aqui escutando Edu & Tom, um cd que ganhei de um grande amigo, quando o inverno do ano passado morria. Era Agosto, e minhas férias em João Pessoa terminavam. Eu estava num mês um pouco triste: desses que a gente chora fácil. Fase de transição. Apesar de alguns arranhões doídos de sarar, vejo que foi um tempo importante pra mim: como pessoa, como mulher. Dias tristes seguidos de manhãs de sol. Dias de se escutar, se perceber, e se amar com cicatrizes e descobertas, e sonhos, e a expectativa de uma primavera (que não decepcionou). Este cd me lembra, sobretudo, a primavera de 2003. Eram assim minhas manhãs naquele setembro: eu acordava, corria na praia, degustava um mamão com iogurte, e um cafezinho de leve, ouvindo essa bossa nova suave. Pronta para mais um dia. Foi uma fase de se recompor de alguns tropeços: e sentir novos aromas, e flores acariciando os velhos espinhos, que já nem doíam mais. Redescobri o meu amor pelo Rio, e pelos projetos que me trouxeram até aqui. E por novos amigos, e novas manhãs. Setembro se parece com trilhas e rapel na pedra da Urca; guaraná; a vista da baía da biblioteca da uff; CCBB; Jonathan Crary; Paul Ricoeur; Portishead; Adélia Prado; Festival de Cinema do Rio; caminhadas em Ipanema. Se parece também com o bom e velho tatame aqui de casa: as almofadas coloridas, luz de velas, um incenso, e aquela seleção básica de mp3 rolando. Foi uma fase gostosa. Dessas que a gente se refaz. E eu pressentia que o verão seria – como de fato foi – de altas temperaturas, e lembranças inesquecíveis.

Por falar nisso, lá se vai mais um março, e suas águas fechando o verão Que ironia do destino eu ter nascido no mês em que morre o verão: eu que guardo uma cumplicidade com os dias quentes e amarelos. O outono vem aí: uma estação de imagens melancólicas, mas bonitas.
***

Tive um fds delicioso. Ao sabor de dama de ferro, namoro, sushi (hummm, que rodízio delicioso!) e amigos.
Agora me dêem licença: vou voltar aos trabalhos ;).
Saudade de vocês!

enviada por Poetisa



16/03/2004 10:24
De passagem por Jampa, soprei as velinhas. As velinhas, e não as velhinhas! E ninguém me venha com o trocadilho infame, por favor. =P
Trago na mala uns livros maravilhosos que ganhei, presentes, a lembrança de uma semana especial e alguma saudade. Ah... e o peso dos 2.5 também. Este quase me custa um excesso de bagagem. E a propósito, o recado aos engraçadinhos: no comment about this subject. Hehehe. Percam a piada, e ganhem a amiga.
Ademais fiz um curso de roteiro e direção para curtas com Torquato Joel. Cineasta paraibano merecedor de meu olhar apaixonado. Criador de Passadouro, um poema imagético. Quem não viu, veja.
E já que o assunto é cinema, alguém aí viu Dogville? Acabei de ver. Ainda estou naquele estado de transe: de quem experimentou um filme foda, e a ficha ainda não caiu ainda. Sabe como é? Apurando a coisa. Só quero dizer que a câmera inquieta, aquele desnudamento da cenografia, o olhar despudorado e irônico sobre os homens e suas instituições ainda estão aqui comigo, roubando o sono. Lars Von Trier vem dizer do seu ceticismo com uma beleza que aflige e desarma. Preciso ver de novo a película.

"Mas eu vos digo: o vosso amor ao próximo é vosso amor a vós mesmos." (Nietzsche, F.Assim Falou Zaratustra)
enviada por Poetisa



03/03/2004 22:07
Eu explico minha ausência esses dias. Não, não me entendam mal. Claro que eu não abandonei a flor, nem a náusea. É apenas uma questão prática: continuo no campo minado das tecnologias bélicas da minha casa (hunf =/). Troquei a placa filha da mãe (a expresssão é de Laura, mas eu pago os direitos autorais!). Só que filho da mãe na verdade é o técnico que me roubou! Cobrou uma nota e instalou uma placa defeituosa. E há algumas semanas ele me promete rever a bobagem que fez. Só que – claro - eu acredito em carioca tanto quanto em papai noel! A lei do mercado carioca tem suas peculiaridades, a saber: a cláusula da malandragem. Um pouco de civilidade melhoraria as relações de serviço por aqui.


O carnaval foi legal. Dissipei alguns estresses. Saí com meus amigos. Fizemos nossa festa na farme. Fui a dois blocos: o cordão da bola preta e a banda de ipanema. Apesar da saudade do frevo pernambucano, foi bem divertido. Além disso, vimos uns filmes, fomos ao teatro, tomamos uma cachaça mineira com mel na “casa da lua” e namorei muito. To com saudade do meu amor =*.
Por coincidência estava lendo esses dias um artigo de Dirce Riedel (vocês conhecem?) sobre como alguns personagens do Machado de Assis guardam “traços carnavalescos”na sua construção: o paradoxo, a paródia, as dissonâmcias, o excêntrico. E fiquei viajando na idéia de como o carnaval é uma festa popular rica, no sentido de resistência mesmo. É tão lugar comum associar essa festa a uma coisa de conformação social, vadiagem e blablablá. Coisa mais medíocre e autoritária. É preciso um olhar muito rude para não ver a beleza do frevo, do samba de raiz. E um humor pouco refinado para não entender a sátira de costumes que o povo compõe espontaneamente nas ruas. Olhar rude, humor pouco refinado... ou então "ruim da cabeça, ou doente do pé" ;).

enviada por Poetisa



11/02/2004 13:44
Acabo de cruzar, na frente de casa, com "Cabela". Cabela é uma personagem bizarra que reside no meu prédio. Poderia ter perdido o bom humor ao vê-la agora, hunf. Mas não. Ela não merece tanto. Afinal, meu mau humor da semana passada (vide post anterior) foi curado (bem curado) com a contribuição, claro, dos carinhos de uma pessoa que eu gosto muito. Afinal, vocês sabem: eu sou pisciana (exigente e manhoooosa =P). Prometo descrições mais minunciosas a respeito da personagem bizarra que falei. Aguardem os próximos capítulos (rs).
Por enquanto, quero dizer que sonhei com as castanholas do Decom (dept. de comunicação da ufpb) e tive grandes saudades dos meus amigos da facul. Lembrei de histórias, histórias de um tempo. Também quero escrever sobre isso melhor depois. Estou adiando tudo hoje? Não, é que estou com uma música dançando no pensamento. É ela que quero postar hoje aqui. Sou uma poeta que oscila entre versos medíocres, o silêncio e o vício de parasitar outros poetas. Uma das minhas vítimas prediletas é o Chico. Ele pode falar de um par de olhos que me reparte e me soma. Um dos remédios para curar meu mau humor da semana passada. Mas aviso: como todo remédio, ele possui contra-indicações e reações adversas ;).

A melhor metáfora:

TANTO AMAR

Amo tanto e de tanto amar acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar, e outro que agita.
Tem um olho que não está, meus olhares evita
E outro olho a me arregalar sua pepita.
A metade do seu olhar está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar na bodeguita.
Se seus olhos eu for cantar um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar toda a pintura.
Ela pode rodopiar e mudar de figura
A paloma do seu mirar virar miúra
É na soma do seu olhar que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar ou faroleiro.
Amo tanto e de tanto amar acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar e outro me fita.
Suas pernas vão me enroscar num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar no infinito.
Amo tanto e de tanto amar em Manágua temos um chico
Já pensamos em nos casar em Porto Rico...

Chico Buarque Parasitado de Hollanda
enviada por Poetisa



03/02/2004 18:34
Alguns dias em Búzios com amigas: e novas paisagens, e novos sabores.
Algumas caminhadas. Minha primeira visita "a caráter" a uma praia de naturismo (Olho de Boi). Lindíssima.Tudo bem que vencemos uma trilha gigantesca para chegar aquele lugar paradisíaco. Mas valeu a pena. O lugar é para respirar diferente, e entrar n'outra temporalidade (essa frase tá virando moda - e eu vou cobrar direitos autorais hein =P). Enfim, fiquei muito zen. E acho que vou pensar em me dedicar mais a causas ecológicas. Como, por exemplo, a campanha politicamente correta (e sensata - convenhamos!) que vi estampada na camiseta de um gringo:
"Save Water. Drink Beer".
Quem vai aderir?
***

Estou tentando exorcizar o mau humor. Na verdade nem estou postando de casa hoje. Meu computador me deixou na mão. Ou melhor, sem mãe. Ou melhor, sem placa-mãe!
Estou engraçadinha hoje?
Hunf. Tentativazinha (no diminutivo mesmo) de melhorar meu humor. Além do computador, meu telefone está uma droga, o som não tá muito legal, e a tv achou pouco e também não lá essas coisas todas. Enfim, as tecnologias resolveram fazer uma greve (sem causa definida) na minha casa. Uó!
Pausa para colocar as coisas em ordem. E isso inclui não só eletrodomésticos, mas decisões importantes também.

"... Amando noites afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias..."

(Chico Buarque Lindo de Hollanda)




enviada por Poetisa



24/01/2004 16:08
"De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece?"
(Foucault, Michel. História da Sexualidade. Vol. II - O uso dos prazeres)
enviada por Poetisa






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)