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11/05/2004 23:36
EPIFANIAS & DELICADEZAS
Voltando para casa hoje, deixei meus olhos estacionados num anúncio de gosto duvidoso de uma operadora de celular. Uma criatura (de beleza, admito, não duvidosa!) segurando seu celular. Um número. Escrito: oi pegação. Sabem qual é? Pronto. Um minuto de silêncio para mim. Não, não para entender (claro que não!). Está óbvia. É luto mesmo. Mau gosto dos diabos.
Ainda sobre o assunto que em traz aqui hoje. Conversando com meu amor ontem, descubro (um pouco surpresa, é verdade) alguns desencontros que passamos quase sem perceber. E algumas nossas fragilidades. Fragilidades difíceis de escapar hoje em dia. De como as relações afetivas estão sendo esgarçadas, ao sabor do mercado e de um nervosismo hedonista. A cultura do consumo transforma tudo em mercadoria: adquire (ou pega), gasta, descarta e procura o novo. Tudo muito veloz. Tudo muito nervoso. E mesmo o amor está assim, meio descartável. Tão comum ouvir de amigos que ficaram com fulaninho, mas que nem rola mais, que cansou, que não se apaixona. Não é nada moralista. Até acho que ninguém é obrigado a casar com vinte e poucos anos. Balada é bom. Beijar gente bonita também. Mas parece que muita coisa se perde nessa ansiedade de consumir prazer. Quero entender o valor de olhar nos olhos; e dormir sentindo a respiração de quem a gente ama; e fazer planos; e sonhar em conjunto; e rir de bobagens; e mãos se acariciando no cinema; e brincar no chuveiro; e ver o sol nascer na cama; e fazer cara feia por ciúmes; e cozinhar pra quem a gente gosta; e descobrir quem merece nossa melhor ternura. Isso não tem preço. Por isso não cabe no mercado: não é fácil jogar fora, pra comprar um de outra linha. Sei lá. To de saco cheio da ditadura do prazer. Prezo meu tesão e a alegria. Mas prefiro ter o prazer do que deixar que o mito do prazer inesgotável me tenha. Hoje voltando de viagem e trocando idéias com o papai do meu amor, e falando dessas coisas, eu disse a ele que me assusta ver com que facilidade o capitalismo se apropria das nossas utopias, e mercantiliza a beleza. Como é fácil para uma propaganda falar nossa linguagem, vestir nossos mitos, e prometer realizar desejos. Como ela se reveste de ludicidade, e ganha ares de sedução, plastificando nossa subjetividade. E perguntei a ele (nas minhas considerações céticas) onde ficam nossas possibilidades de resistência, e mesmo nossos afetos, num contexto em que nosso imaginário está capturado por uma autoridade publicitária. E ele me trouxe Marx, dizendo que nada que é humano pode nos ser estranho. Gostei da resposta. É preciso elegância para assumir um senso crítico sem perder a poesia. Ou não perder a ternura jamais, para lembrar o lema de um grande utopista.
Penso que uma possibilidade de resistência hoje é o amor. Não o amor que dá e passa na velocidade de uma noite. Outras possibilidades de afeto que não se esgotam no sexo. Estou ouvindo Frank Sinatra, My Way. E pensando no que disse ao meu amor dia desses: toma meu coração e cuida bem dele, tá. Delicadezas. Epifanias. E confusões de uma pisciana romântica.
enviada por Poetisa
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